Empreendedorismo Nº 2
Desde que nasceu o Gilmar acompanha o pai no caminhão de reboque. Aliás, nasceu ali mesmo, no meio do caminho para a maternidade. Trinta anos dentro daquele caminhão. Tanto que nunca se imaginou trabalhando em outro lugar que não fosse o “Auto-Socorro e Oficina do Alfredo”. Não porque ele pensava que aquela era a melhor coisa do mundo, mas talvez porque ele nunca tinha pensado no assunto. Só trabalhava lá. Todo dia. Às vezes de noite e de madrugada também.
Conhecia a cidade inteira. Ainda moleque já era bom de prosa. Sabia conversar com qualquer um sem precisar falar do tempo ou falar mal de político. Foi por isso que as pessoas começaram a se abrir com ele, contar os problemas. Ele guinchava um carro e ia escutando as lamentações. Era um ouvinte de primeira. Mas o pai reclamava. ‘Tanto serviço pra fazer e você aí de prosa com os freguês’.
Mal sabia que futuro aquilo traria. Com o tempo o pessoal foi pegando mais intimidade e até pedia conselho pro Gilmar. Troca esse carro logo antes de fundir na sua mão. Perdoa ele, minha senhora, o Vanderlei não vive sem você. Tira essa grana parada da poupança e investe em imóvel que você ganha mais! Nem sempre ele acertava ou as pessoas faziam o que ele dizia, mas a procura foi aumentando.
Até que chegou um dia em que o Vanderlei ligou de madrugada. O Gilmar já ia ligando o caminhão, mas não era o carro que tinha estragado. O Vanderlei precisava de uns conselhos. Foi a primeira vez que o “auto-socorro” prestou um serviço completo só pelo telefone. Um sucesso. O Seu Alfredo ficou preocupado. Tudo bem, podia continuar atendendo, mas como ia cobrar pelo serviço?
Mas o Gilmar deu um jeito de novo. Passou a emitir as notas fiscais da oficina mesmo. Discriminava lá: Consertos em geral e cobrava suas consultas. E, afinal, “auto-socorro” e “auto-ajuda” não é mesma coisa? A clientela não tem reclamado. O Vanderlei até largou da amante e vive cheio de cerimônia com a esposa até hoje.
Empreendedorismo
Um empreendedor moderno deve estar atento às oportunidades. E o Getúlio sempre soube disso. Eram as oportunidades que estavam meio teimosas em não aparecer. Enquanto isso, a Lourdes, coitada, se virava pra pagar as contas de casa. Ele vinha guardando umas economias desde o FGTS do último emprego há uns cinco anos, a espera da tal oportunidade.
Foi numa quarta-feira, quando a Lourdes chegou em casa, que ele deu a notícia, já de malas prontas. “Vamos pro Sul”. Ela pensou em dizer, não, pára com isso, mas tinha uma confiança meio inexplicável no marido e, também, desde pequenininha tem uma vontade danada de conhecer Foz do Iguaçu.
Só no caminho que o Getúlio foi explicar o negócio. Ia montar uma churrascaria
O Getúlio explicou que o número era só pra impressionar. Os gaúchos vinham só de três em três, eles tinham que chegar lá arrasando. Os dois que valessem por doze mineiros! Na verdade, de Minas mesmo era só ela. Ele nasceu na região de Piracicaba e veio depois de velho pra cá, mas isso não importava, e ficou nervoso com a esposa. Um grande empreendimento não podia perder tempo com pequenos detalhes!
E foi um sucesso tremendo! A Lourdes escreve pra mãe contando as novidades sempre que tem uma folga. No começo o pessoal ia pra assistir o Getúlio acender a churrasquerinha. Era um Deus nos acuda! Joga álcool, abana, aquela bagunça toda. Às vezes o sal passa um pouco, outras vezes se esquece do sal. É muita coisa pra lembrar também. A gauchada se divertia com isso e enquanto assistia, pedia uma cervejinha, um Cheetos de tira-gosto, picolé pras crianças.
Por fim a Lourdes teve a idéia de fazer um pão de queijo pra acompanhar o churrasco do Getúlio. As vendas foram aumentando. Até contrataram uma mocinha pra atender. Um dia a churrasqueira custou um pouco mais pra acender e a Lourdes ofereceu só o pão de queijo mesmo. Pronto. A Churrascaria 12 Mineiros fazia o melhor pão de queijo de todo o Rio Grande do Sul. Era trabalho que não acabava mais.
O Getúlio disse que vai escrever um livro sobre empreendedorismo, contando sua história de sucesso, dando dicas de como enxergar as oportunidades e tudo o mais. Por enquanto tem só um esboço e se afastou um pouco da churrascaria pra clarear as idéias. A Lourdes trabalha feito Hércules, por 12, fazendo cada dia mais pão de queijo. Anda cada vez mais raro ela escrever pra mãe. Na última carta disse que não vê a hora de conhecer Foz do Iguaçu, mas cadê tempo?
Réquiem dos Pequenos, Versículo V
Réquiem dos Pequenos (na terceirona)
Réquiem dos Pequenos, Versículo III
Caricaturas do herói Narciso, os vilões que amam seus umbigos. Como o original, desprezam a bela Eco e sua lagoa. Mas são só caricaturas. Longevas mas, para sorte da pequena vila de nome diminuto, mortais. Temporários. Elegíveis. "Expulsáveis". Será? A pequena vila perdeu seu norte e sua matriz. Talvez tenha perdido também sua cabeça. Sobraram os umbigos. E, claro, as imensas panças. E segue a vida, empurrada com barrigões.
MC d AA p CI Nº 8 - O Pobrema II - O dos otro
Já estudamos na lição número dois deste manual a melhor maneira de prosear sobre os problemas próprios. Depois, na lição número seis, estudamos sobre como falar mal dos outros, ou seja, como falar dos problemas dos outros pelas costas. Agora, não com menos saliência, veremos a delicada maneira de versar sobre os problemas dos outros com os próprios donos da lamúria.
Como sabemos, quem sabe faz e quem não sabe, ensina (e é justamente daí que vem minha autoridade para escrever este manual, mas isso não vem ao caso agora). Pessoas em geral, na CNTP, costumam ter soluções práticas e fáceis para todos os problemas do mundo. Na hora de oferecer alguns conselhos, cada um traz em si o dom de ser um expert em auto-ajuda, capaz de resumir em uma única frase a solução do problema alheio.
Parece fácil. Mas, como sempre, é preciso muito cuidado. Se diante da dificuldade vizinha, a principal coisa que tiver a dizer for “pense positivo”, guarde a pérola pra você. Uma pessoa envolta por problemas pode ter pequenos lapsos em sua boa educação e acabar mandando você pensar positivo em lugares bem distantes.
Mas a intenção de ajudar, ainda que com palavras ralas, não é de todo ruim. Pior mesmo é a aproximação dos problemas alheios por simples curiosidade. Pessoas que carregam este modo de sarcasmo costumam dizer coisas do tipo: “fica triste não, tem muita gente no mundo muito pior do que você”. Se você quiser mesmo parecer uma pessoa simpática, nunca diga nada semelhante a isso.
Réquiem dos Pequenos, Versículo II
"E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vem de outro sonho Feliz de cidade Aprende de pressa a chamar-te De realidade Porque és o avesso Do avesso, do avesso, do avesso..."
Réquiem dos Pequenos - Versículo I
MC d AA p CI Nº 6 - O Comentário
Este manual não é dirigido apenas aos sem-assuntos em geral, mas também a todos os muitos que falam demais. Porque, como dizem as leis de probabilidades e estatísticas, quanto mais se fala, maior a chance de falar uma besteira que não devia. É preciso zelo e cuidado. Principalmente quando se vai comentar a vida alheia. Digo comentar porque sei que você, leitor assíduo do cotidiano, não é de sair fazendo fofoca por aí. Ou é?
De qualquer forma, a regra número um seria não dizer nada sobre um pessoa quando ela está longe que você não poderia dizer se ela estivesse perto. Simples. Nada que você não soubesse, claro. Mas o mundo não há de ser um lugar muito quietinho se as pessoas obedecerem isso?
Pois é. Mas já que é inevitável, que pelo menos acrescentemos alguma coisa a esses colóquios menos nobres. Repito aqui os três (sempre três!) “filtros” ensinados pelo Sócrates. O filósofo, não o doutor, claro.
A primeira coisa a se saber é: seu comentário é verdade? Você garante mesmo que a novidade que tem a dizer é de boa fonte. Não corre o risco de ficar como mentiroso depois. Isso é feio, você sabe. Na dúvida, cala a boca e ouve.
Mas ainda que seja verdade, se pergunte: é bom o que você tem a dizer? Porque a gente deve espalhar notícia boa. Exaltar as pessoas que são porreta mesmo e deixar de lado as que deixam a desejar. É possível?
Eu sei que não. Gente boa anda meio em falta nesse mundo. Se Sócrates se preocupava com isso 500 anos antes de Cristo, imagina a bagunça hoje com internet, celular e televisão. E sua língua até coça com vontade de falar. É difícil. Mas pensa ainda uma última vez: pelo menos é útil esse diabo dessa coisa que você tem pra dizer?! O erro, o desajeito, a vergonha de outra pessoa vai servir de conselho ou consolo para alguém? Então pode dizer. Mas sem muita empolgação senão vira sarcasmo.
MC d AA p CI Nº 5 - A Novela

Um dos temas mais fáceis para o assuntamento diário, sem dúvida nenhuma, é a novela. Se você é um sem-assunto crônico e não gosta de futebol, sua iniciação aos colóquios informais deve se dar através das novelas. Aliás, o que facilita ainda mais é que, se você é um sem-assunto crônico que não gosta de futebol, com certeza assiste novela e vai poder levar uma conversa adiante.
Não há quem não leve adiante uma conversa sobre novela. O que você precisa é classificar o seu interlocutor para adequar o discurso. Em relação a novelas, as pessoas normais se dividem em três grupos: as que assumem isso abertamente, as que não assumem e as que dizem preferir as novelas do SBT.
Com todas elas você pode conversar sobre a novela das oito. Sem problemas. Vão saber sobre tudo. O que pode acontecer é as pessoas do tipo dois, depois de falar sobre o capítulo anterior, criticarem o autor ou atores. Não contrarie. Se pertinente, critique também. Só pra deixar o assunto fluir.
Já com as pessoas que não têm problemas com novelas, sinta-se livre pra xingar os malvados e desejar-lhes todo mal no último capítulo. Mas não exagere em elogiar demais os bonzinhos. Pode pegar mal.
O cuidado maior deve ser com aqueles que preferem as novelas alternativas. A não ser que você também assista, dê um leve sorrisinho. Se disserem que as do SBT têm mais história, fique alerta. Caso insistam falando que as outras são muito previsíveis, desista da conversa porque desse mato não sai cachorro.
Há um outro detalhe um pouco mais técnico e que veremos mais detalhadamente quando falarmos sobre filmes, mas é bom já ir trabalhando: O in e out. O in é quando a conversa sai mais natural e você discute a história, os personagens, xinga, chora, se surpreende, mas sem exageros pra não virar bichice. O out é mais cult, se é que você understand. Já é aquele papo sobre atores, diretores, cenografia, continuísmo e essas coisas que se critica, fala mal, reclama. Mas sem choros.
É praticamente impossível você se dar bem nos dois lados. Enquadre-se. Mas sem exageros. Pra não prolongar demais a conversa. Senão você perde a hora da novela.
MC d AA p CI Nº 4 - A Bóia
Um dos principais temas sobre o qual a prática é bem mais saborosa do que a conversa, sem dúvida nenhuma, é a comida. Alimentar-se está longe de ser simplesmente uma necessidade, mas é uma diversão, um prazer e por que não dizer: a melhor hora do dia. E por ser tão bom é que vira assunto fácil em qualquer lugar.
Mas, como sempre também, o mundo moderno vem desvirtuando a prosa. Bons tempos aqueles em que as tias e avós se reuniam na cozinha fazendo as quitandas e doces e pães de queijo...êta, fome! Ficavam elas lá nas suas fofocas amenas e a única recomendação maior a seguir era não falar de boca cheia. Hoje as recomendações são muitas e por isso foi preciso tecer este manual.
Vamos começar pelas calorias. Se você quer mesmo assuntar simpaticamente por aí, esqueça de vez as calorias. Definitivamente, contar calorias não ajuda ninguém a emagrecer e conversar sobre calorias, pior, dá uma ansiedade tremenda e faz engordar. Mude o assunto. Fale sobre o sabor.
Se por acaso não entender nada sobre amargos e agridoces, experimente só criticar o exagero ou falta do sal ou do açúcar. Mas, a menos que seu interlocutor tenha um papel e caneta na mão, evite também dar receitas. Ninguém guarda de cabeça a tal da meia xícara de chá de sei lá o quê? Mas como é que faz chá de maisena?
Conte onde e com quem comeu nas suas férias em 1997 (eu disse com). Diga onde comprou aquele tempero maravilhouso ou o boteco que fez a pior picanha da sua vida. São informações úteis. Reparta.
Mas, por favor, mantenha os aspargos, alcaparras, manjericões e assemelhados longe de conversas informais. Dê preferência ao tutu com torresmo, à feijoada (ô, saudade!), ao churrasco duro no fundo do quintal e essas coisas que ajunta gente ao invés de separar.
E, por fim, essencial é o elogio. Não tenha vergonha nunca de dizer para quem fez que estava bom o que realmente estava. E se não tiver, mude de assunto. Comente o futebol, o frio ou aquela revista bacana que você recebeu, que tem uma gata na capa.
MC d AA p CI Nº 3 - O Futebol
O terceiro assunto ameno para nossos colóquios cotidianos é o que traz mais desavenças quando mal conversado. Talvez um dos temas mais tratados em nosso país, o futebol tem a peculiaridade de ser uma conversa onde ninguém muda a opinião de ninguém. Porque existe argumento pra tudo nesse mundo, mas não existe argumento que faça um torcedor mudar de time. A não ser que seja um torcedor muito fajuto. E torcedor fajuto não conta.
O primeiro ponto que você precisa saber sobre conversas sobre futebol é o seguinte: seu time é o melhor do mundo. Sempre. Se perder jogando bem, perdeu com estilo e ganhar todas é meio chato. Se ganhar jogando mal, valem os três pontos, bola na rede e ponto final. Se ganhar com roubo do juiz, você não tem culpa, pode comemorar e, se perder roubado, mande o desgraçado do juiz para o quinto dos infernos ou qualquer lugar daquela redondeza.
Mas não se esqueça que tudo isso também vale pro torcedor do time adversário, o que dificulta, e muito, o andamento de qualquer conversa. Portanto, os diálogos sobre futebol devem versar em outros pontos, menos perigosos à saúde pública. Por exemplo, a importância tática do volante de contenção, assunto que rende pelo menos até o tira-gosto chegar na mesa.
Outra peculiaridade sobre o futebol é que sua prática pode ser tão boa e divertida quanto a conversa sobre o assunto, o que invariavelmente não acontece com outros assuntos, ora cá, ora lá. E uma das melhores coisas que pode existir nesse mundo é conversar sobre futebol depois de jogar futebol, de preferência contando sobre os gols e maravilhas que fez com a bola. Coisa que ninguém mais no jogo viu, mas que você lembra com riqueza de detalhes.
Mas isso não é pra todos, a gente bem sabe. É nessa que entra o mais importante sobre o futebol: a memória. Quem não ganha um campeonato brasileiro há 15 anos sabe bem do que eu estou falando. Memória é fundamental. Não precisa ser graduado em escalações de todos os times e todas as copas. Basta uma boa história pra lembrar. Um título, um gol. Isso contagia e faz com seus interlocutores lembrem também de outras histórias e, a partir daí, a conversa não tem mais hora pra acabar.
Para a hora de assistir o fubebol não é necessária a leitura deste manual para desenvolver uma boa conversa. Simplesmente acompanhe os lances e teça comentários relevantes. Na falta deles, limite-se ao “ulha”. Mas nunca diga um “ulha” sem a devida convicção.
Para os que não gostam de futebol, recomendo o crochê.
MC d AA p CI Nº 2- Os pobrema
O número dois dos assuntos amenos não é tão ameno assim. No mais das vezes, bem poderia ser evitado em situações corriqueiras e informais. Final de contas, ouvidos alheios carregam já seus próprios problemas. Mas, diante de sua inevitabilidade cotidiana e cultural, pelo menos aprendamos alguns desconfiômetros básicos.
Como vimos na lição anterior, nossa privacidade não deve invadir o constrangimento de ninguém. Este é um ponto que vamos martelar durante todo o aprendizado. E pobremas de qualquer natureza são muito privatizados e nada, nada públicos.
- os pobrema de dinhero;
- os pobrema de saúde e
- os pobrema de família.
MC d AA p CI Nº 1- O tempo
A situação é típica, quase banal, mas não menos carregada de complexidades. Você está ali com o fulano. Não é bem um amigo, talvez nem se lembre do nome dele ou dela. No máximo, é um conhecido seu, ou pior, conhecido de um amigo seu. Mas você tem que parecer educado. Não! Você é muito bem educado, mas tem medo de parecer que não é e então precisa puxar o assunto. Mas o quê? Claro. O tempo. Sempre ele. O ‘número um’ das conversas impessoais.
Mas o fato de ser o mais conversado não o torna simples. É preciso algum conhecimento prévio. Aliás, carrego minhas desconfianças de ser exatamente este o motivo de todo telejornal ter uma previsão do tempo: qualificar os nossos colóquios informais. Afinal, hoje em dia não basta apenas ficar no – perdoem o trocadilho – ‘chove não molha’ de dizer “está frio hoje”. A vida moderna pede mais.
Em um primeiro momento você pode levar a conversa para um lado mais técnico. Alguma previsão pro final de semana trará a atenção do seu interlocutor. Evite clichês como “faz calor dia de semana e chega sábado e chove”. Prefira algo mais decidido. Para isso é preciso um conhecimento básico de estações do ano e suas variações. Coisa que o pessoal mais novo vem perdendo a intimidade. É preciso estudar.
Coerência também é fundamental. Não dá pra ensaiar em casa um “acho que vai chover”, sem ao menos dar uma olhadinha na janela pra ver se coincide. Mas se você quiser realmente parecer simpático vai precisar de bem mais do que isso. Citar algo sobre a umidade relativa do ar seria tiro certo. Nem precisa de nada muito sofisticado. Basta um “esse ar seco é péssimo pra minha rinite” e a pessoa já vai saber que você leva a conversa a sério. Usar o pronome possessivo antes de uma doença traz ao diálogo um ar de proximidade quase inigualável. Mas este é um tema que abordaremos mais adiante em nosso manual.
Aliás, em colóquios sobre o tempo, falar da intimidade só é recomendado após sete ou oito frases. Antes disso pode parecer que sua privacidade está invadindo a pessoa. E não se invade qualquer pessoa em encontros informais por aí. Que isso fique claro.
Em suma, atentos ao céu e aos telejornais estaremos aptos para conversar sobre o tempo. Na dúvida, contenha-se em um “bom dia” e mantenha a boca fechada. Antes a pessoa pensar que você não é muito simpático do que ter certeza.
O Céu... Pode Esperar.
O José Afonso era uma homem bom. Tão bom que até incomodava de vez em quando. As pessoas ficam meio desconfortáveis perto de quem faz as coisas muito certas. E o José Afonso era do tipo que dobra o pijama quando acorda. E guarda. Mesmo depois de quarenta e cinco anos de casados, a Dona Quitinha ainda não tinha se acostumado com isso.
Certa vez, quase chegaram a discutir por causa dele nunca ter se atrasado um diazinho sequer depois do serviço. Não discutiram porque o José Afonso não é do tipo que discute com a mulher.
A única coisa que tirava o homem do sério era o truco. Aí ninguém podia com ele. Tinha carta na manga até quando jogava sem camisa e blefava melhor que pão-duro pedindo orçamento. Não havia quem ganhasse do José Afonso no truco. Não importava o adversário nem o parceiro. Ele sempre ganhava.
O José Afonso pedia nota fiscal em padaria pra não dever nada nem pro governo, mas era o maior ladrão da cidade quando o negócio era baralho. Jamais apostou um centavo. Gostava era do prazer de ganhar.
Mas, como acontece com todo mundo que vive nesse mundo de nosso Deus, um dia o José Afonso bateu a botas. Dormiu e quando acordou já estava lá em cima, esperando na fila do São Pedro. Entrou sem nenhuma restrição. Era cedo ainda, e pôde tomar café com uns amigos velhos e pôr os assuntos em dia.
Passou o dia sendo apresentado aos chefes de departamento e conhecendo as regras da casa. Coisas como dormir cedo e não interferir nos assuntos lá de baixo, ainda que o Flamengo passeie pela zona de rebaixamento. Depois do almoço, já tinha escolhido qual era a melhor sombra pra esperar a Dona Quitinha chegar.
Lá pelas seis, quando o movimento na portaria ficou mais tranqüilo, o São Pedro veio puxar prosa e convidou o José Afonso pra uma partidinha de truco. Nem acreditou. E Pode? Ele estava mesmo no céu!
O São Pedro deixou ele dar as cartas. O José Afonso embaralhou pensativo e foi pro jogo. Não ganhou uma. Cadê coragem pro blefe ou uma cartinha na manga? Mas o São Pedro adorou a companhia e deixou reservadas as suas seis horas da tarde para o truco com o José Afonso por toooda a eternidade.
Mudanças Climáticas
Eu estava indo almoçar, descendo morros de bicicleta, e carregava quinhentos cartões em uma sacola bem fininha. E foi numa rua não muito movimentada que a danada arrebentou e espalhou cartões para todo lado. Parei a bicicleta no passeio. Talvez tenha dito um palavrão não muito externado. Voltei, agachei no meio da rua e fui pegando, um a um, cada um deles. Nem pensar em deixar tudo lá. Quer dizer, pensar eu pensei, mas sem chance.
Veio o primeiro carro e desviou bem devagar. Uai, vai parar? Deu uma olhadinha e foi embora. Depois uma moto desviou de mim, espalhou os papéis no chão mais um pouco com seu vento e também se foi. Sem olhadinha, eu acho. Da casa do lado saiu um rapaz, olhou e de repente já estava longe. Por um instante ninguém mais.
Aí vieram três carros de uma só vez e decidi contar quantos passariam. Os dois primeiros desviaram, espalharam um pouco mais o cartões e seguiram. O terceiro eu demorei a perceber que estava lá, no meio da rua, esperando eu dar licença para ele passar. Continuei catando. Ia deixar ele sujar tudo? A contragosto, cansado de esperar, ele desviou, espalhou mais um pouquinho os cartões com seu vento e foi embora.
Então vieram três meninas, indo para escola. Uma delas abaixou e pegou um cartão no chão. Quando vi que não era ajuda, só curiosidade mesmo, pedi que me ajudasse. Disse que não podia, pois tinha que chegar na escola à uma hora. A escola ficava a dois quarteirões e era meio dia e quinze. Por que não disse simplesmente não? Ou nada, como as outras duas que ficaram só olhando?
Passaram mais duas motos, uma bem em cima de tudo quando eu fui pegar alguns mais perto do passeio e espalhou longe os cartões que faltavam. Mas eu já estava quase terminando. Mais dois carros e uma moto e acho que não esqueci nenhum cartão para trás.
Voltei pra bicicleta e segui meio desajeitado umas quatro casas porque não tinha como carregar sem sacola. Já pensou cair tudo de novo? Tinha uma moça no passeio e perguntei se ela tinha sacola. Tenho, sim, disse ela ao se levantar e estranhei quando ouvi: “Você deixou cair todos os papeizinho na rua, né?”. Ela ficou lá sentada assistindo a cena?!
Voltou com duas sacolinhas(!), sentou de novo e, enquanto eu dava a primeira pedalada, me informou: “Caiu outro aí, ó!”. Eu parei e voltei pra pegar.
Seis carros. Três motos. Cinco pedestres. Duas sacolinhas inteiras e uma arrebentada. Quinhentos cartões. O vento produzido pelo vácuo. Eu e a bicicleta.
E a televisão pensando que o fim do mundo vem de mudanças climáticas.
Série Grandes Encontros - Na Praça
Depois que se separou da Dúvida Cruel, o Certeza Absoluta havia se tornado um grande cabeça dura. Tinha sempre uma resposta pronta pra tudo. Do tempero do churrasco à origem do universo, ele mantinha sempre convictas as suas teorias. Era praticamente impossível um diálogo com ele. Até que numa terça-feira lhe apertaram a campainha. Normalmente, quando isso acontecia, ou era o vendedor de enciclopédias – que nunca teve a mínima chance contra ele, ou as crianças da vizinhança com seus trabalhos escolares. A fama do Certeza Absoluta havia se espalhado por todo o bairro. Mas, naquela terça-feira, foi diferente. Com um sorriso no rosto e uma trança deitada no ombro, a Idéia Nova, desavisada que só ela, bateu na porta do Certeza. E não se via aquele brilho nos olhos dele desde quando ele conheceu sua primeira Dúvida. Depois disso, a única surpresa que ele havia tido tinha sido a invenção do barbeador de três lâminas. O que não pesava em nada em seu currículo, diga-se de passagem. Mas, pro Grande Amigo do Peito não havia dúvida: a tal da Idéia Nova vinha pra mexer com a vida do cara.
Dizem, e eu não sei se são as Boas ou as Más Línguas, que ele até tinha pensado em mudar de nome. Mas, por fim, nem deu bola às sugestões do Detalhes Desimportantes e mudou mesmo foi a sua maneira de pensar. O Certeza Absoluta, então, se casou com a Idéia Nova e o povo todo já está especulando sobre o que será que vai nascer disso. Antes de viajar pras núpcias, porém, ele disse rápido para os repórteres que não tinha a mínima idéia. É, o mundo, talvez, não esteja assim tão de cabeça pra baixo...
Gavetas
Sempre chega o dia em que a gente paga o preço de uma gaveta desarrumada. E nunca é barato. Vem com juros e taxas sem explicações. Fora o estresse de não se encontrar o que procura. Quanto custa um estresse? As gavetas parecem inofensivas, ficam lá paradinhas, cheias de segredos e a gente nem percebe do que são capazes. Mais falsas do que nota de três reais, servem pra esconder as bagunças e desorganizações, fingindo um ar sisudo num ambiente às avessas.
Uma verdadeira guerra fria é o que acontece nas mais diversas gavetas, sejam de roupas, papéis, de casa ou escritório, onde mora aquela tralha toda que a gente nunca sabe de onde veio. E não joga fora porque não se joga fora o que não se conhece. E quem conhece verdadeiramente o interior de uma gaveta? A vida é cheia de lições.
De repente você lembra que anotou aquele telefone naquele pedacinho de papel que se não lhe falha a memória “guardou” na gaveta da estante da sala... ou da cômoda? Do guarda-roupa, quase certeza? Mas não existem certezas quando lidamos com gavetas fechadas. Dizem até que são interligadas de alguma forma misteriosa e brincam com a nossa cara, escondendo as coisas. Eu só acredito vendo, mas ainda não encontrei uma gaveta que me caiba pra tirar a prova.
O fato é que o mundo seria um lugar mais fácil de se viver sem gavetas. Afinal, quanto tempo dura a arrumação de uma gaveta? Um dia ou meia hora dependendo da rotatividade. Teríamos de passar o dia inteiro arrumando as gavetas. Comendo e indo ao banheiro a pequenos intervalos. Talvez até com a porta aberta pra manter a atenção. Mas quem vai pagar a gente por manter as nossas próprias gavetas arrumadas? Com carteira e fundo de garantia e tudo mais? Nem todo trabalho merece sua recompensa, então?
A modernidade é mesmo cheia de males sem soluções ou estudos específicos. E nem me venha com essa história de “cinco ésses” que te finco o pé na beiça.
Série Perfis - Amigo
Sabe aquele menino que, na escola, sentava na segunda carteira e sempre conversava sobre o dever de matemática, a prova de física e o trabalho de biologia. Pois é. O mundo é cheio desses. Todo mundo conhece pelo menos um. Quando cresce, ele se torna...
Na rua ele te vê, de longe, depois de muito tempo, e, em vez do “como vai você?”, ele diz:
- Guilherme, quanto tempo!... tá trabalhando onde?
- Ahn... ah, tô só fazendo uns bicos mesmo. E, você, como é que tá?
- Auxiliar de produção! Mas o supervisor disse que logo, logo eu já viro grau dois...
- E a Lucinha, faz tempo que não vejo... casou?
- A Lucinha tá bem, tá trabalhando no banco. Gerente. Passou no concurso. Você não ia fazer também aquele concurso?
- Pois é, não deu... Rapaz, olha só!... parece de revista aquela moreninha...
- Ah, é a Maria Amélia. Atendente ali na padaria do Agenor. Dizem que é ruim de serviço... Mas falando do concurso, fiquei sabendo que vai ter outro. Parece que as inscrições já abriram...
- Falô... Mas o que cê tá fazendo aqui na praça numa hora dessas?
- Dia de folga. Trabalho seis, folgo um. Preferia quando era 12 por 36. Mas, pelo menos, o salário é bom. Superior ao do mercado. Fora os benefícios, claro. Mas o sindicato tá brigando por mais! Sabe como é, né? Tá chegando a data-base...
- Beleza... mas eu tenho que ir indo, Gilberto. Bom vê você de novo.
- Pra que a pressa? Não tem que bater o ponto mesmo... Sabe Guilherme, sempre que eu te vejo eu lembro daquela vez que você me passou a resposta na prova de física. Não esqueço nunca... A professora quase pegou, lembra?
- Pura adrenalina... mas eu tenho que chegar ali adiante, cara...
- Tá indo pr’aquele lado? Coincidência. Eu também. Tô indo ali visitar a Goreti. Tá desempregada coitada...
E agora, José?
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